Negras falam por Negras - Mulheres de Axé do Brasil 2020
Este é o tema do Coletivo Mulheres de Axé do Brasil, neste Novembro Negro de 2020. E o que isso significa? Grande avanço. O Coletivo MAB teve a coragem de selecionar mulheres retintas para falarem sobre mulheres negras na história; racismo; antirracismo; na política; ancestralidade...
Nada mais justo do que ouvirmos os iguais falarem de si próprios e de como se sentem. E o que estamos vendo?
Vimos ontem, por exemplo, seis mulheres retintas falando com propriedade sobre que “não basta não ser racista é preciso ser antirracista”. E como elas apresentaram sabedorias ancestrais, conteúdo científico, música, poesia e muito mais.
Vimos que temos anciãs sabias, doutoras, educadoras, atrizes, cantoras, poetas, que defendem o antirracismo com unhas e dentes e que se colocam como intelectuais orgânicas junto a suas comunidades.
Tudo isso me fez refletir sobre a Salvador dos anos 70, quando eu comecei a me entender como gente. Quando via negros sendo tratados como bichos de segunda classe. Sim, afinal os animais de estimação dos brancos sempre foram tratados como gente de primeira classe.
E quanto assisti a subserviência desses negros, para apararem as migalhas e restos oferecidos pelos brancos, muitas vezes nem tão brancos assim, muitas vezes embranquecidos pelos cabelos alisados, pelas plásticas de nariz, bastando para isto terem a menor condição financeira para conseguirem embranquecerem-se.
Hoje, cinquenta anos depois, sinto-me feliz em assistir a negras retintas sabendo exatamente aonde querem chegar e quais lugares querem ocupar: o lugar que bem quiserem.
Hoje convivo com negras que se negam a vestirem-se com base numa moda eurocêntrica ou usarem penteados que alisam seus cabelos.
Hoje vejo negros candomblecistas tendo orgulho de identificarem-se como tal. Com suas missangas em fios, com seus turbantes, com seus patuás, com sua roupa colorida, com seus rechilieux exuberantes, com suas grandes argolas e pulseiras.
Hoje me encanto em ver o lugar do negro sendo disputado em nossa sociedade, por negros que promovem ocupações e se juntam em resistência, tendo se apropriado dos espaços antes só ocupados pelos indivíduos de pele clara.
Falta muito ainda para que os pretos ocupem o poder e lugares de poder, na proporção percentual em que existem na sociedade brasileira. Mas aos poucos, à medida em que o sistema de cotas lança profissionais no mercado e nas instituições públicas, à medida em que um percentual daqueles profissionais escolhem a dedicação à ciência e à pesquisa estão ocupando e não só esses.
Meus queridos, eu, candomblecista, fui muito descriminada por ter escolhido e ter me convertido a religião dos negros. E somente por isso, visto que tenho pele clara, fui discriminada muitas vezes. Hoje vejo o povo preto se impondo à sociedade e para ocupando seus espaços e fico imensamente feliz por ter vivido para assistir a tantos avanços, mesmo que com gosto de sangue e humilhações.
Não há mais volta. Não há mais quem consiga calar essas tantas vozes, gritos e marieles. Não há como segurar a disseminação dos horrores que ainda têm ocorrido contra os negros e mestiços desses. Eles continuam acontecendo, sim, mas a resistência se faz de tal forma que ganha mundo e os pretos do mundo exigem que NEGROS FALEM POR NEGROS e não brancos falem por eles. Avante, negros. Axé!
A autora Elza Ramos é Mulher de Axé, publicitária, pedagoga e iyalorixá